quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sem cor

Clara, que já não preferia o verde optou dessa vez pelo amarelo, como uma tentativa de inovar. O novo, de tom amarelado, encheu seus olhos, que por pouco não saltaram sobre o balcão de compras, regidos por tamanha euforia. Fizera-se a cor verde, aquela da esperança, companhia para a Clara durante três anos e de nada reclamou. Foste cúmplice das suas façanhas e ouvinte, quando o mundo lá fora dava-lhe as costas. Aqueles três anos não teriam sido suficientes, para a senhorita Clara? Substituiria com tamanha convicção o interior esverdeado e suas recordações? Deixara-se levar pelo entusiasmo da novidade que invadira a sua porta, arriscou-se pelo outro, que ao ser sincera, três anos mais tarde, também cairia como o verde de outrora, no entanto a tal novidade foi mais além, precisou apenas de três semanas e pintou o sete: o amarelo, que tomara lugar do verde, agora desbotado, suja com êxito a parede que antes era enfeitada com um quadro do René Magritte.
O verde não volta mais
O amarelo pouco durou
Com medo da solidão, Clara, apelou para o bege, a única disponível.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Não estamos acostumados

Arrumou-se para sair, assim como fazia de segunda a sexta. Às vezes, também, aos sábados e seguiu a mesma trajetória de outrora. Sua rotina semanal consistia principalmente na sua ida ao ponto de ônibus. Era o rumo que seguia para longe dos fantasmas que a perseguem durante seus vinte e quatro anos de estadia terrestre. Fantasmas de carne em osso e língua afiada, como a espada Excalibur, cada palavra dita por tais fantasmas é um corte certeiro em sua carne desnuda.
Sentia-se livre, então ao sair daquele meio, em direção ao seu trabalho. Dezesseis horas em ponto, seu transporte está à vista fizera-se adentrar e sentar-se no mesmo lugar na maioria das vezes, apenas não o fazia quando alguém já tivera tomado conta. Em meio a outros passageiros, que ali estavam, ainda assim, se sentia só preferia dessa forma. Tirou de dentro da sua bolsa seu mp3 e ouviu aquelas músicas repetidas de bandas que poucos conheciam.
Como de costume, via a cidade passar pela janela e eram viadutos, carros para lá e para cá, mendigos, sujeira, bagunça. Não se importava com os sons daquela cidade, parecia tudo tão normal, aquela desigualdade. Em uma poltrona, um pouco a frente da que estava, havia uma mulher, aparentemente com seus trinta e poucos anos e no seu colo, uma criança.
O garotinho não parava de olhar para seu rosto pálido, que fingia olhar a janela, agora, mas também fitava timidamente o rosto daquele menino. Era um semblante de lugar único para a inocência misturado a uma felicidade contínua, transbordava uma calmaria os seus olhinhos, a paz que ela sempre procurara. Parecia nunca ter visto nada igual, o engraçado é que aqueles olhos infantis causavam acanhamento em todo seu corpo: como uma criança podia causar essa sensação? Era apenas um garotinho e nada mais.
Voltava, então, a olhar a janela, encarar aquelas ruas com jovens parados no trânsito pedindo esmola era mais fácil do que enfrentar a doçura e a paz que o fitava, já que era tão raro, se fez seus olhos abominarem o menino e para a cidade que passava pela janela voltou-se a realidade.

domingo, 16 de agosto de 2009

Carta para a família

Às vezes o fato de consumar um ato que seja longe dos padrões que te cercam, não é questão de vaidade ou vangloria, porém um motivo para ir de confronto a tais regras. Imperadores te rodeiam todos os dias, gritam aos seus ouvidos o que deve ser certo e errado, te julgam por você pensar e por fim, arrancam suas entranhas até não sobrar mais nada.

Certa vez, uma garota, aparentemente frágil (ou pelo menos era o que eles desejavam que a tal menina fosse), subordinada há tanto tempo por palavras de ordens e infiltrada numa cabine de pensamentos retrógrados, permitira fugir desses tais vínculos. Mas uma fuga diferente. Não correra para se esconder daqueles que ali reinavam, todavia cansada de evitar o seu verdadeiro eu para não manchar, de alguma forma, a imagem dos tais Imperadores e ou não rasgar ao meio os seus orgulhos perante aqueles outros que o idolatravam, tomou-lhe como única alternativa: enfrentá-los.
Dentro de um baú velho foram retiradas as suas vontades e necessidades, que escondera por medo de não agradar aos Grandes, então as pôs em prática e nada a poderia parar. Ah, como fora julgada e massacrada por risos e palavras, mas sempre as mesmas falas, eram todos iguais e não se davam conta de que no espetáculo, os palhaços eram eles. E para ser sincera, a garota de aparência delicada, apenas era boa em demasia, pois se dentro de si fossem reveladas as afirmações que pensara sobre cada um, seria como um soco no estômago, para eles, faltariam o ar, cairiam como fruta podre ao solo.
Os czares não sabiam é que a garota por todo esse tempo os observava e agora, para todos os seus venenos, ela tinha o antídoto. Em pouco tempo, aos montes, as chacotas e murmurinhos foram se despedaçando e de repente, o rei apenas reinava, mas já não governava. O rei sempre ditará regras, cabe você decidir segui-las ou não.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Efeito Dominó



20 de novembro de 1999
Querida tia Clara,


Escrevo-lhe para compartilhar de grande dúvida que me afligi e sendo a senhora atribuída de uma inteligência notável, não vi outro para que eu deposite tamanha confiança sobre tal assunto. Permita-me então, esclarecer, em curtas linhas, a minha confusão: como é de seu entender, a vovó possui dois periquitos, os quais foram trazidos para cá ainda pequenos e desde então, a sua querida mãe os trata como membros da nossa família.

Vale ressaltar, que nesse momento vovó viaja para um descanso, mas logo estará de volta, se não me falha a memória, o seu retorno estar previsto para amanhã à tarde. Mas continuemos sobre os periquitos: faz quatro dias da viagem dita e estou sozinho aqui em casa, às vezes assisto a TV, ontem vi um filme chamado “Ressurreição” – é sobre dois policiais que tentam achar um serial killer, que acredita ser a reencarnação de Judas - ou leio um livro – tenho lido um muito bom, chama-se “Mente Assassina” do P. D. James - no entanto esses periquitos, que mais parecem duas crianças mimadas e birrentas gritam ou grasnam, não sei a palavra certa para o som que fazem, mas deixa-me em estado de imensa raiva.

Bom, o fato é que antes de ontem eu soltei-os pela casa, presumir que parariam de tentar chamar atenção. Mas estava tão entretido com o livro, que por um instante falhou-me a memória sobre tais criaturas e por obra do destino pisei em cheio em um deles. Esmaguei-o sem pudor! Fiquei parado ao olhar a façanha e corri para lavar os restos mortais da pequena ave. Senti um nojo que corroeu minha espinha dorsal por questões de segundos, um tipo de gosma avermelhada e amarela, ossinhos quebrados, o periquito da vovó ficara tão irreconhecível, mas ao mesmo tempo senti uma paz, afinal, a barulheira cessara.

Limpei toda aquela sujeira, mas o outro periquito me fitava, ele sabia de tudo que acontecera naquela noite, ele testemunhara a morte do seu amigo e estava prestes a contar tudo que vira. Coloquei-o na gaiola e como se nada tivesse acontecido, sentei-me ao sofá e pus-me ao ler o livro, nessa hora já estava na página de número duzentos. Um silêncio pairava pela casa, mas, tia Clara, me veio uma angustia tremenda dentro do meu ser, ao perceber que a pequena ave que restara parecia triste.

O dia amanheceu, o periquito de nada quis levar ao bico e eu ainda precisava de uma bela desculpa para dar a vovó, o livro e a TV já não era tão atrativo assim, mas algo chamava a me redimir perante a ave, afinal, eu matara seu amigo e agora o que sobrara na sua gaiola era uma dor incontestável. Fiz-me um herói e dono do seu destino, pus-me a tirar a sua dor, afoguei-o em um balde d’água, agora ele poderá reencontrar o seu aliado outra vez, pouco restara para fazer aqui na Terra, precisamente em sua gaiola, dei para si a felicidade de outrora.

Suponho que a senhora também ache o certo, não é, tia Clara? No entanto, ainda me resta aquela maldita dúvida. Como citei nas primeiras linhas dessa carta, a vovó era apegada em demasia aos defuntos e creio que não ficará satisfeita com a morte alheia das criaturas verdes de bicos pequenos, também sei, que eles faziam o divertimento que mudava o semblante envelhecido dela. A senhora não imagina como partiu o meu coração ao vir a pequena cria desolada com a morte do seu ente querido, convenhamos que ele não passava de uma ave da qual pouco me familiarizava, mas ainda sim o ajudei a cessar a dor. Agora, idealize então com a minha amada vovó? Terei eu que ser novamente o herói da história? O dono do destino? Se for pela felicidade da vovó...

Oh! Bela tia Clara, eu sei que se orgulhas de mim, espero ansiosamente a sua resposta.

Seu sobrinho
N. B.


P.s. Não se esqueça, tia, a vovó retornará em breve, precisaremos agir rápido.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O primeiro café do dia

Estava astuta a espera de uma resposta do outro lado da mesa, enquanto a sua companhia engolia a seco um pedaço de pão e ao mesmo tempo o seu segredo. O silêncio só não era maior, por conta do ruído que saíra da boca a cada mastigada. Ela desejara naquele momento ouvir qualquer outra onomatopéia, além do “tic-tac” do relógio, para que preenchesse o intenso vazio.

O arrastar da cadeira fora seguido pelo levar de pratos à pia e o olhar penetrante que ela pusera sob a sua companhia, ainda esperava por uma resposta da pergunta que fizera pouco antes do desjejum. Ao mesmo tempo, sua cabeça era possuída pelas supostas réplicas que viriam a serem ditas por aquela boca, que fora meramente invadida por uma gota de geléia de morango.

- Talvez, esteja moldando uma série de ironias e mal dizeres para que, no final, ainda consiga me reerguer – pensava com os seus botões.

A sua companhia não parecia hesitar em dar-lhe tão fácil a sua resposta e, sinceramente, parecia gostar do jogo que acabara de ser lançado, sentia um gozo profundo ao vir o semblante dela, um rosto de estampa cor da dúvida, sorria sutilmente enquanto lavava a louça.

- Mas, então, meu amor, estou a espera de uma exclamação da sua parte ou mesmo qualquer negação, hipérbole, enfim! Expulsa da sua boca um som que seja! Disse, com os olhos arregalados e uma ansiedade que proporcionara um tique nervoso em sua perna que balançava como se fosse saltar a qualquer momento do seu corpo.

- É... – finalmente a boca, que nesse momento não possuía mais resquícios da geléia de morango, abrira e pôde-se ouvir uma voz ainda mais doce e delicada vindo da mesma. O outro lado pusera a falar naquele instante.

- Você!

Nesse momento ela pusera a levantar seu corpo que fora entorpecido por um amontoado de sensações, do qual, por pouco não chegara ao mesmo ardor do clímax sexual. Na direção daquela voz doce fez-se como alvo e em cinco ou sete passos, lá estava a sua frente, a boca que demorara a responder sua pergunta sobre uma determinada escolha que proponha naquela manhã numa mesa de toalha branca.

- A resposta é simples e fácil quando a questão é escolher, entre viver uma série de ilusões proporcionadas pelo grande mundo lá fora, apenas para atender a demanda de sorrisos que, por ora, se escondem e apreciar da nossa pequena janela os primeiros brotos da primavera ao teu lado. Acredite, se para uns é questão de escolha, para mim, lê-se “orgulho”.

Um adocicado beijo deu lugar as palavras que cairam se misturando ao café da xícara que ainda restara na mesa.