quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Falta quando falta.

Eu sei, estou tão negligente em relação ao blog, porém me falta tempo, me falta inspiração, o que me sobra em demasia é desânimo. Preciso praticar mais a minha escrita, idéias, mas existe uma lacuna, um enorme abismo, entre o meu querer e a parte do poder - que já não depende, necessariamente, de mim - e isso é frustrante. Em todo caso, deixo aqui um leve tom de pensamentos desvairados que brincam dentro de mim.


Às vezes me falta muito
Às vezes me falta nada
Às vezes não me faz falta
Às vezes a falta é falha
Às vezes faltar faz parte
Às vezes uma parte me falta
Às vezes falto com a verdade
Às vezes a verdade me falta
Às vezes a falta é falsa
Às vezes corrói a alma
Às vezes a falta é amarga
Às vezes faz falta, a falta.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um dia

Um dia,
No passado,
Sem importância, um qualquer me parou.
Tão distraído, nesse longo sem rumo das minhas andanças
Ao olhar para mim, ele perguntou:

- O que você não faz?

Rapidamente olhei para o tal: “que louco”, eu pensei

- Como assim o que não faço? Eu pratico muitos atos, sejam falhos ou exatos

Vi, então, o louco observar ironizado, o meu olhar encurralado
Com a resposta presa a boca de tão surpreso que eu não dei.

Nesse mesmo dia
No passado
Ao me esquivar daquele pirado, contentei-me com o outro lado
De um asfalto esburacado.

Por incrível que pareça sua frase absurda fixou-se em minha cabeça
Tirou-me sono, fome e também a concentração
Sou alguém de muito status
Fama
Carro importado
Tenho nome com brasão.

- Como assim o que eu não faço?

Calma! Era só um louco!

Mas e se ele tiver razão?
E se tudo que penso que fiz foi em vão?
E se a parte mais importante da minha vida for esse “não”?
Farei uma lista para eternidade com tudo que nunca fiz
E sei que em sua maior parte foi medo de ser feliz.

Aquele pirado, que me encontrou no passado, de nariz avermelhado era feliz.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sem cor

Clara, que já não preferia o verde optou dessa vez pelo amarelo, como uma tentativa de inovar. O novo, de tom amarelado, encheu seus olhos, que por pouco não saltaram sobre o balcão de compras, regidos por tamanha euforia. Fizera-se a cor verde, aquela da esperança, companhia para a Clara durante três anos e de nada reclamou. Foste cúmplice das suas façanhas e ouvinte, quando o mundo lá fora dava-lhe as costas. Aqueles três anos não teriam sido suficientes, para a senhorita Clara? Substituiria com tamanha convicção o interior esverdeado e suas recordações? Deixara-se levar pelo entusiasmo da novidade que invadira a sua porta, arriscou-se pelo outro, que ao ser sincera, três anos mais tarde, também cairia como o verde de outrora, no entanto a tal novidade foi mais além, precisou apenas de três semanas e pintou o sete: o amarelo, que tomara lugar do verde, agora desbotado, suja com êxito a parede que antes era enfeitada com um quadro do René Magritte.
O verde não volta mais
O amarelo pouco durou
Com medo da solidão, Clara, apelou para o bege, a única disponível.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Não estamos acostumados

Arrumou-se para sair, assim como fazia de segunda a sexta. Às vezes, também, aos sábados e seguiu a mesma trajetória de outrora. Sua rotina semanal consistia principalmente na sua ida ao ponto de ônibus. Era o rumo que seguia para longe dos fantasmas que a perseguem durante seus vinte e quatro anos de estadia terrestre. Fantasmas de carne em osso e língua afiada, como a espada Excalibur, cada palavra dita por tais fantasmas é um corte certeiro em sua carne desnuda.
Sentia-se livre, então ao sair daquele meio, em direção ao seu trabalho. Dezesseis horas em ponto, seu transporte está à vista fizera-se adentrar e sentar-se no mesmo lugar na maioria das vezes, apenas não o fazia quando alguém já tivera tomado conta. Em meio a outros passageiros, que ali estavam, ainda assim, se sentia só preferia dessa forma. Tirou de dentro da sua bolsa seu mp3 e ouviu aquelas músicas repetidas de bandas que poucos conheciam.
Como de costume, via a cidade passar pela janela e eram viadutos, carros para lá e para cá, mendigos, sujeira, bagunça. Não se importava com os sons daquela cidade, parecia tudo tão normal, aquela desigualdade. Em uma poltrona, um pouco a frente da que estava, havia uma mulher, aparentemente com seus trinta e poucos anos e no seu colo, uma criança.
O garotinho não parava de olhar para seu rosto pálido, que fingia olhar a janela, agora, mas também fitava timidamente o rosto daquele menino. Era um semblante de lugar único para a inocência misturado a uma felicidade contínua, transbordava uma calmaria os seus olhinhos, a paz que ela sempre procurara. Parecia nunca ter visto nada igual, o engraçado é que aqueles olhos infantis causavam acanhamento em todo seu corpo: como uma criança podia causar essa sensação? Era apenas um garotinho e nada mais.
Voltava, então, a olhar a janela, encarar aquelas ruas com jovens parados no trânsito pedindo esmola era mais fácil do que enfrentar a doçura e a paz que o fitava, já que era tão raro, se fez seus olhos abominarem o menino e para a cidade que passava pela janela voltou-se a realidade.

domingo, 16 de agosto de 2009

Carta para a família

Às vezes o fato de consumar um ato que seja longe dos padrões que te cercam, não é questão de vaidade ou vangloria, porém um motivo para ir de confronto a tais regras. Imperadores te rodeiam todos os dias, gritam aos seus ouvidos o que deve ser certo e errado, te julgam por você pensar e por fim, arrancam suas entranhas até não sobrar mais nada.

Certa vez, uma garota, aparentemente frágil (ou pelo menos era o que eles desejavam que a tal menina fosse), subordinada há tanto tempo por palavras de ordens e infiltrada numa cabine de pensamentos retrógrados, permitira fugir desses tais vínculos. Mas uma fuga diferente. Não correra para se esconder daqueles que ali reinavam, todavia cansada de evitar o seu verdadeiro eu para não manchar, de alguma forma, a imagem dos tais Imperadores e ou não rasgar ao meio os seus orgulhos perante aqueles outros que o idolatravam, tomou-lhe como única alternativa: enfrentá-los.
Dentro de um baú velho foram retiradas as suas vontades e necessidades, que escondera por medo de não agradar aos Grandes, então as pôs em prática e nada a poderia parar. Ah, como fora julgada e massacrada por risos e palavras, mas sempre as mesmas falas, eram todos iguais e não se davam conta de que no espetáculo, os palhaços eram eles. E para ser sincera, a garota de aparência delicada, apenas era boa em demasia, pois se dentro de si fossem reveladas as afirmações que pensara sobre cada um, seria como um soco no estômago, para eles, faltariam o ar, cairiam como fruta podre ao solo.
Os czares não sabiam é que a garota por todo esse tempo os observava e agora, para todos os seus venenos, ela tinha o antídoto. Em pouco tempo, aos montes, as chacotas e murmurinhos foram se despedaçando e de repente, o rei apenas reinava, mas já não governava. O rei sempre ditará regras, cabe você decidir segui-las ou não.