20 de novembro de 1999
Escrevo-lhe para compartilhar de grande dúvida que me afligi e sendo a senhora atribuída de uma inteligência notável, não vi outro para que eu deposite tamanha confiança sobre tal assunto. Permita-me então, esclarecer, em curtas linhas, a minha confusão: como é de seu entender, a vovó possui dois periquitos, os quais foram trazidos para cá ainda pequenos e desde então, a sua querida mãe os trata como membros da nossa família.
Vale ressaltar, que nesse momento vovó viaja para um descanso, mas logo estará de volta, se não me falha a memória, o seu retorno estar previsto para amanhã à tarde. Mas continuemos sobre os periquitos: faz quatro dias da viagem dita e estou sozinho aqui em casa, às vezes assisto a TV, ontem vi um filme chamado “Ressurreição” – é sobre dois policiais que tentam achar um serial killer, que acredita ser a reencarnação de Judas - ou leio um livro – tenho lido um muito bom, chama-se “Mente Assassina” do P. D. James - no entanto esses periquitos, que mais parecem duas crianças mimadas e birrentas gritam ou grasnam, não sei a palavra certa para o som que fazem, mas deixa-me em estado de imensa raiva.
Bom, o fato é que antes de ontem eu soltei-os pela casa, presumir que parariam de tentar chamar atenção. Mas estava tão entretido com o livro, que por um instante falhou-me a memória sobre tais criaturas e por obra do destino pisei em cheio em um deles. Esmaguei-o sem pudor! Fiquei parado ao olhar a façanha e corri para lavar os restos mortais da pequena ave. Senti um nojo que corroeu minha espinha dorsal por questões de segundos, um tipo de gosma avermelhada e amarela, ossinhos quebrados, o periquito da vovó ficara tão irreconhecível, mas ao mesmo tempo senti uma paz, afinal, a barulheira cessara.
Limpei toda aquela sujeira, mas o outro periquito me fitava, ele sabia de tudo que acontecera naquela noite, ele testemunhara a morte do seu amigo e estava prestes a contar tudo que vira. Coloquei-o na gaiola e como se nada tivesse acontecido, sentei-me ao sofá e pus-me ao ler o livro, nessa hora já estava na página de número duzentos. Um silêncio pairava pela casa, mas, tia Clara, me veio uma angustia tremenda dentro do meu ser, ao perceber que a pequena ave que restara parecia triste.
O dia amanheceu, o periquito de nada quis levar ao bico e eu ainda precisava de uma bela desculpa para dar a vovó, o livro e a TV já não era tão atrativo assim, mas algo chamava a me redimir perante a ave, afinal, eu matara seu amigo e agora o que sobrara na sua gaiola era uma dor incontestável. Fiz-me um herói e dono do seu destino, pus-me a tirar a sua dor, afoguei-o em um balde d’água, agora ele poderá reencontrar o seu aliado outra vez, pouco restara para fazer aqui na Terra, precisamente em sua gaiola, dei para si a felicidade de outrora.
Suponho que a senhora também ache o certo, não é, tia Clara? No entanto, ainda me resta aquela maldita dúvida. Como citei nas primeiras linhas dessa carta, a vovó era apegada em demasia aos defuntos e creio que não ficará satisfeita com a morte alheia das criaturas verdes de bicos pequenos, também sei, que eles faziam o divertimento que mudava o semblante envelhecido dela. A senhora não imagina como partiu o meu coração ao vir a pequena cria desolada com a morte do seu ente querido, convenhamos que ele não passava de uma ave da qual pouco me familiarizava, mas ainda sim o ajudei a cessar a dor. Agora, idealize então com a minha amada vovó? Terei eu que ser novamente o herói da história? O dono do destino? Se for pela felicidade da vovó...
Oh! Bela tia Clara, eu sei que se orgulhas de mim, espero ansiosamente a sua resposta.
Seu sobrinho
N. B.
P.s. Não se esqueça, tia, a vovó retornará em breve, precisaremos agir rápido.